CRÔNICA

Crônica do Professor Antônio Glauber sobre as notícias do dia 29 de março de 2025

Crônica do Professor Antônio Glauber sobre as notícias do dia 29 de março de 2025
Publicado em 30/03/2025 às 16:51

Por Antônio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE


Era uma vez um sábado de outono que acordou com cheiro de café, esperança e pólvora. O Brasil, esse eterno personagem de novela sem final, abriu o jornal do dia como quem abre um baú de Pandora: esperando encontrar poesia, mas tropeçando em realidade.

Na manchete bordada com orgulho e ciência, lá estavam os filhos de Sergipe – não do acaso, mas da persistência. Seis projetos premiados na Feira Brasileira de Ciências e Tecnologia, a Febrace, aplaudidos na USP, território sagrado dos saberes. Era como ver um bando de beija-flores pousando no cérebro da educação, provando que, mesmo com o giz gasto, a merenda escassa e os quadros rachados, o conhecimento floresce onde há afeto pedagógico. Palmas para os professores que, com a mesma mão que segura o apagador, seguram os sonhos dos seus alunos como quem segura o mundo para não cair.

Mas enquanto as mentes brilhavam nos laboratórios, os bois mugiam nos currais do Exporingo 2025. A feira agropecuária, misto de vaquejada com capital financeiro, movimentava cifras e sorrisos. Era a dança dos cavalos e das planilhas, dos tratores e das intenções eleitorais. Porque em ano ímpar, todo curral é também palanque. Dizem que boi gordo não dá voto magro.

E no campo mais sagrado do estado – o gramado do Batistão – Confiança e Itabaiana duelaram como gladiadores do futebol. O azulino, com o coração pulsando como tambor de escola de samba, segurou o empate e ergueu a taça do Campeonato Sergipano como quem ergue um troféu contra o destino. O Confiança é aquele time que tropeça no primeiro tempo da vida, mas vira o jogo no segundo, aos 47, no último suspiro da esperança. Em Pirambu, em Japaratuba, em toda esquina onde o rádio ainda narra sonhos, teve grito preso que finalmente se libertou.

Mas o sábado, que era quase festa, foi cortado por um grito internacional. O Brasil, entre uma cuia de chimarrão e um gole de diplomacia, condenou os novos bombardeios de Israel sobre o Líbano. A trégua virou fumaça, e a paz, mais uma vez, virou miragem no deserto de ego e pólvora. O Itamaraty soltou uma nota pedindo o fim da presença israelense, como quem joga um balde d’água em incêndio de proporções bíblicas. Mas no Oriente, as palavras evaporam antes de molhar. Foguetes e lágrimas continuam trocando cartas sem remetente.

Que mundo é esse onde crianças constroem ciência em Aracaju e outras são soterradas em Beirute? Onde professores cultivam ideias no agreste e tanques destroem livros no Oriente? Que planeta é esse onde um time sergipano vence na raça, enquanto nações perdem na diplomacia?

O sábado, meus caros, foi um poema rasgado ao meio. Metade esperança, metade estilhaço. Um verso gritado nas arquibancadas, um lamento sussurrado nas fronteiras.

Que não nos falte a ciência dos meninos, a coragem dos professores, a garra do Confiança, a lucidez da paz e o humor necessário para seguir. Porque viver no Brasil é isso: acordar com medo, dormir com ironia e sonhar com um país onde a manchete principal seja apenas… um pôr do sol em Japaratuba.


Porque todo sábado merece ser poesia, mesmo quando o mundo insiste em ser manchete.