CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 24 de março de 2025

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 24 de março de 2025
Publicado em 25/03/2025 às 2:35

Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE


O dia amanheceu com o céu escrevendo poemas nas nuvens, mas, como diria um velho trovador de calçada, nem todo azul é calmaria e nem todo decreto é poesia. Segunda-feira, 24 de março de 2025: uma data que caberia bem num romance de Gabriel García Márquez .

Na Universidade Federal de Sergipe, um novo capítulo foi aberto com tinta de ciência e selo de esperança: o competente professor André Maurício Conceição de Souza foi nomeado reitor temporário, mas com currículo tão permanente quanto as constelações de estrelas no céu do nordeste brasileiro. Um físico, doutor, pós-doutor, ex-vice, ex-diretor, ex-presidente (de fundação). Que sua gestão seja uma aula magna de respeito, ciência e democracia, com direito a quadro branco, giz colorido e livros com cheiro de luta.

Enquanto isso, no Senado, um teatro se desenrola. A proposta que garantia o “livre acesso” às praias e cachoeiras tropeçou na palavra “livre”, como quem pisa em areia movediça ao tentar nadar em maré de interesses. Ah, Brasil, terra de contrastes: o país onde o mar é de todos, mas o acesso é de poucos; onde o pôr do sol é patrimônio do Instagram, mas o pescador é enxotado pela cerca elétrica da especulação imobiliária. O “livre” saiu do texto, mas não sairá da nossa boca. Continuaremos a gritar “livre!” nas ondas, nas matas e nos córregos. Porque natureza não é balcão de hotel cinco estrelas; é altar sagrado da vida.

E por falar em vida, o governo Lula riscou de caneta nova as regras do Bolsa Família. Um decreto com cheiro de desconfiança, mirando a lupa nos lares de uma pessoa só. Para evitar fraudes, disseram. Mas quem evita as fraudes maiores dos políticos do congresso nacional? As mansões em nome de laranjas, os paraísos fiscais em nome do progresso, os sorrisos em horário eleitoral em nome do povo? Quem vive só muitas vezes não está só por opção, mas por abandono do próprio Estado. A solidão não deveria ser critério de exclusão, mas de cuidado. Porque, no Brasil real, há gente que se alimenta da fé e janta com a companhia da esperança. Uma só pessoa ainda é uma família. Um só prato ainda precisa de comida.

Lá do outro lado do mundo, a Terra sacudiu os ombros. Um terremoto de magnitude 6.7 estremeceu a Nova Zelândia. E, enquanto os moradores evacuavam as costas, a natureza mais uma vez nos lembrava que ela não pede licença nem audiência pública. Ela vem, sacode e vai. O chão treme e a vida treme junto. O planeta, esse velho sábio cansado dos nossos abusos, grita em placas tectônicas o que não conseguimos ouvir em discursos sobre sustentabilidade.

Hoje, a ciência assumiu a cadeira do poder acadêmico; o mar quase foi fechado por grades legislativas; o prato do pobre foi revistado por decretos; e a terra, essa mãe que nunca se cala, estremeceu as raízes do mundo.

No fim do dia, quando as estrelas surgirem sobre Japaratuba e a brisa do litoral soprar nas janelas dos que resistem, que possamos lembrar: a liberdade não está apenas na lei, mas no olhar de quem enxerga o outro como parte do todo. Que possamos ver nas ondas o direito de ir, nos decretos o dever de cuidar e nas universidades a centelha de um futuro que se ensina com afeto, se constrói com ciência e se protege com coragem.

Porque entre a praia e o parágrafo, entre o tremor e o decreto, entre a solidão e o saber… ainda pulsa o coração do povo. E ele quer ser ouvido.