CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 21 de março de 2025
Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE
No palco de um Brasil que teima em misturar comédia, tragédia, drama político e novela mexicana, o dia 21 de março de 2025 amanheceu como quem acorda atrasado e tropeça no próprio chinelo. E lá vamos nós: entre sol ardente, seca persistente, justiça dançante e convocação de última hora, seguimos equilibrando o guarda-chuva num vendaval.
O TRE-SE, com seu martelo de juízo e toga de veludo, bateu mais forte do que batida de porta em briga de casal. Cassou Ícaro de Valmir, como quem arranca um retrato da parede da sala. O deputado, que voava em Brasília feito pássaro em rota de influência, agora terá que bater as asas em direção ao TSE, última esperança de ninho político. A Justiça, quando quer, vira catavento: gira, gira e, às vezes, aponta para o lugar certo. Outras vezes, apenas gira.
Enquanto isso, Sergipe sorri com os olhos marejados. A seca, essa senhora de mãos rachadas e lábios esturricados, parece dar trégua, mas ainda ronda como ex que insiste em mandar mensagem na madrugada. A esperança brota tímida, feito capim depois da queimada, mas o sertanejo, calejado e sábio, sabe que promessa de chuva em relatório nem sempre vira goteira no telhado.
E por falar em promessas, o STF se debruça sobre um cálculo que há anos é feito com régua torta e borracha suja: a correção do FGTS. Querem saber se a conta, feita desde 1988, será reescrita com dignidade ou se o trabalhador continuará sendo poeta que escreve no caderno do patrão com tinta invisível. A luta é por algo simples: que o dinheiro guardado valha o mesmo que a inflação levou. É pedir demais? Ou o Brasil só corrige o passado quando interessa aos de cima?
Mas o balcão da ironia estava aberto nesta sexta-feira: empréstimo consignado para CLT sem regras claras. É o mesmo que dar um carro sem volante para quem precisa dirigir numa estrada de curva. O trabalhador vai pegar emprestado e, se piscar, já estará devendo até a alma do décimo terceiro. Sem regulamentação, o risco é o mesmo de fazer rapel com fio dental.
E do outro lado do mundo, enquanto o sol torra nossos telhados, o Exército do Sudão resolveu tomar o palácio presidencial como quem toma bombom de criança. A guerra dança com a vida no compasso dos canhões. Um toma, o outro diz que não perdeu. Numa coreografia triste e sangrenta, o palácio vira ringue e o povo, espectador de uma peça onde aplauso é silêncio e lágrimas são cenário.
E como não poderia faltar o futebol, essa religião laica que nos permite sonhar enquanto o país afunda no VAR da realidade, Dorival Júnior convocou reforços para o clássico contra a Argentina. Um quarteto novo entra em campo enquanto outros saem machucados, suspensos ou protocolados. O Brasil sempre foi craque em improvisar elenco — seja em Brasília, seja na zaga.
No fim, entre seca que recua, deputado que cai, guerra que insiste e bola que rola, o país continua seu jogo. Um jogo onde o juiz apita quando quer, a torcida vaiando ou aplaudindo conforme o preço da gasolina, e o placar… ah, o placar, sempre favorecendo os donos do estádio.
Mas a crônica não termina com ponto final. Ela termina com vírgula, porque o amanhã já cochicha sua próxima manchete. E nós, como bons brasileiros, seguimos: secando a água da esperança com pano de chão da resiliência, esperando que o juiz de alguma instância, divina ou não, marque finalmente um pênalti a nosso favor.
Na arquibancada da vida, seguimos torcendo, protestando e vivendo. Porque o Brasil, meus caros, não é para amadores. É para poetas com armadura.




