CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 20 de março de 2025

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 20 de março de 2025
Publicado em 21/03/2025 às 0:38

Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE


Na ciranda de um mundo que tropeça em seus próprios passos, o dia 20 de março de 2025 chegou com ares de tragédia, samba, poeira e hipocrisia. Um dia que poderia muito bem ser escrito por Gabriel García Márquez, pintado por Picasso em sua fase azul, ou narrado por um griô cansado de contar as mesmas histórias de guerra, ganância e gols milagrosos.

No gramado sagrado do futebol, Vinícius Júnior, com seus pés de poesia e pulmões de esperança, decidiu a partida contra a Colômbia aos 53 do segundo tempo. Foi como se o Brasil, cambaleante em tantas áreas, encontrasse um respiro nos dribles de um menino que dança com a bola como se fosse um orixá em dia de festa. A vitória veio, suada, tensa, aos trancos e gols. O povo vibrou, como quem esquece o preço do feijão e o drama do transporte público por 90 minutos de ilusão.

Mas enquanto o verde-amarelo celebrava com bandeiras e buzinaços, do outro lado da realidade — esse lugar sombrio chamado Gaza — um bebê de apenas um mês renascia das cinzas. Ella, nome de música e resistência, foi resgatada dos escombros após um bombardeio que reduziu sua família a pó de memória. Só restaram os avós para contar que ali, sob pedras, jazia o absurdo humano. A menina chorou — e seu choro era uma sinfonia de denúncia, um solo de dor no palco da omissão internacional.

E o Congresso Nacional, sempre com o compasso desajustado, resolveu dançar a valsa do orçamento atrasado. Aprovaram o Orçamento de 2025 com três meses de lentidão e muita pressa em destinar R$ 50 bilhões às suas adoráveis emendas parlamentares — aquele jeitinho brasileiro de massagear egos e irrigar currais. E ainda falaram em superávit, como se fossem mágicos tirando coelhos da cartola enquanto a educação passa fome e a saúde mendiga por respiradores. Superávit de cinismo, déficit de vergonha.

Em Aracaju, a limpeza urbana virou novela de tribunal. O edital da faxina pública foi varrido para debaixo do tapete por pareceres técnicos. O TCE soprou o apito e suspendeu o show. Querem correções, ajustes, transparência — palavras bonitas que dançam no papel, mas raramente sujam as mãos nas ruas cheias de lixo e promessas mal recicladas. Aracaju segue empoeirada, enquanto os interesses se escondem atrás de contratos e contabilidades mágicas.

A menina Ella, renascida entre ruínas, nos ensina que a vida insiste, mesmo quando o mundo desiste. Vinícius Júnior nos mostra que há arte até na aflição. Mas o Congresso, com seus bolsos fundos e calendários frouxos, nos lembra que há quem prefira enterrar o futuro com votos bem direcionados. E Aracaju, nossa irmã sergipana, continua aguardando que a limpeza vá além da varrição e alcance também a ética.

O dia 20 de março de 2025 foi um samba dissonante entre o sonho e o escombro, entre a alegria do gol e a dor da guerra. Um dia em que a bola rolou, a bomba caiu, o papel foi assinado e a cidade esperou.

Que não nos falte poesia para resistir, nem memória para lembrar.
E que, no fundo do poço onde jogaram a esperança, ainda nasça a flor do espanto.