CRÔNICA
Crônica do Professor Antônio Glauber sobre as notícias do dia 15 de março de 2025
Por Antônio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE
O mundo é um palco de metáforas, um grande espetáculo onde os protagonistas são ora heróis, ora vilões, ora apenas figurantes na trama infinita da existência. E o enredo deste 15 de março de 2025 parece ter sido escrito por um roteirista que, entre um trago de ironia e uma dose generosa de poesia, resolveu brincar com as emoções humanas.
O reencontro de um homem e sua Bela
No Hospital de Urgências de Sergipe, uma cena digna de um épico contemporâneo: Jailson, acamado entre fios, monitores e protocolos, viu sua vida ganhar cor com a visita da cadelinha Bela. Uma história digna de um romance canino de García Márquez, onde o amor transcende a razão e a medicina.
O hospital, normalmente um ambiente frio, cheio de corredores de silêncios e paredes de angústia, abriu suas portas para o calor da ternura. E assim, entre bisturis e estetoscópios, a ciência cedeu espaço à poesia da vida. Bela chegou abanando o rabo, como quem diz: “Você ainda tem motivos para lutar”. E Jailson, entre sorrisos e lágrimas, entendeu o recado melhor do que qualquer diagnóstico clínico.
Dizem que cachorro é só um animal, mas os poetas sabem que, muitas vezes, são eles os verdadeiros doutores da alma.
O trovão do rock e o adeus do mestre
Enquanto em Aracaju os primeiros acordes do rock rasgavam a noite, chamando a cidade para celebrar sua existência, em Salvador um trovador dizia adeus aos palcos. Gilberto Gil, com sua voz de vento e versos de mar, iniciou sua última turnê, despedindo-se como fazem os verdadeiros deuses da música: com um canto que não morre, apenas ecoa na eternidade.
Aracaju, sempre jovem e inquieta, pulava ao som das guitarras, enquanto Salvador, ancestral e cheia de músicas, segurava no colo o adeus de um mestre. Mas a música tem dessas coisas: ela se despede sem nunca ir embora. Gil deixará os palcos, mas continuará nos becos, nos fones de ouvido, nas rodas de violão e na alma de cada brasileiro que já dançou ao som de “Palco”.
Ah, se as cidades soubessem cantar, Aracaju hoje seria uma guitarra estridente, e Salvador, um violão dedilhando a melodia do tempo.
Guerra, outra vez?
Mas, enquanto a música embala uns, a pólvora assombra outros. No Iêmen, um velho espetáculo se repete: bombas caem, vidas se perdem e discursos são vomitados em cadeia nacional, como se cada morte fosse apenas um número numa planilha de poder.
Trump, sempre ele, decidiu brincar de maestro da destruição, apertando botões que fazem o mundo estremecer. “Escalada com escalada”, prometem os Houthis, como se a guerra fosse um jogo de tabuleiro, onde se avança uma peça para, em seguida, perder outra.
Mas ninguém ganha numa guerra. Nem os que atiram, nem os que correm, nem os que assistem do conforto de seus noticiários. A única vencedora, sempre ela, é a morte, que marcha altiva entre escombros, vestida de arrogância e desumanidade.
O mundo assiste, impassível, à velha dança da guerra. E enquanto alguns morrem por ideais que nem entenderam, outros morrem apenas por estarem no lugar errado.
E no meio de tudo isso, nós
Somos espectadores dessa tragicomédia global, alternando risos e lágrimas, enquanto giramos nesse planeta que insiste em desafiar a lógica. Um dia, abraçamos nossos cães e sentimos a vida pulsar. No outro, assistimos cidades inteiras virarem poeira, e nos perguntamos para que servem as palavras paz e justiça.
Talvez sejamos apenas atores de um roteiro que não escrevemos. Mas enquanto pudermos escolher algumas falas, que sejam as de amor, que sejam as de resistência, que sejam as que fazem a diferença entre um hospital frio e um hospital com uma cadelinha chamada Bela.
E que, mesmo no caos do mundo, continuemos a ouvir a melodia de Gil, a rasgar o silêncio com o brilho de sua música e a acreditar que, no fim, a poesia sempre encontrará um jeito de sobreviver.




