CRÔNICA
Crônica do Professor Antônio Glauber sobre as notícias do dia 09 de março de 2025
O Tempo, o Fogo e a Voz Eterna
Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE
O tempo, esse escultor invisível de destinos, segue esculpindo histórias com o cinzel implacável dos dias. E no palco da vida, algumas cortinas se fecham enquanto outras se abrem, como num espetáculo que não conhece ensaios nem intervalos.
Hoje, a voz de Paulo Lacerda silenciou. O radialista, que tantas manhãs e tardes encheu de palavras e ecos, agora repousa na imensidão do silêncio. Seu microfone, outrora um bastião de verdades e crônicas, foi desligado pelo implacável roteiro da existência. A notícia vem com a frieza de um obituário, mas na frequência invisível das ondas do rádio, sua voz ainda ressoa, imortalizada nas lembranças daqueles que aprenderam a decifrar o mundo através de sua narrativa.
Enquanto em Aracaju o tempo leva um comunicador, no Rio de Janeiro o tempo se veste de folia e dança pelas ruas ao som do Monobloco. O carnaval tardio, resistência de uma alegria que se recusa a se despedir, prova que o riso é uma insurreição contra o tédio dos dias comuns. A cidade pulsa, embriagada pela percussão e pelo delírio da multidão, enquanto os foliões, como piratas da alegria, saqueiam o tempo e roubam horas extras de festa antes que a realidade volte a cobrar seu pedágio.
Mas, como se o próprio destino quisesse lembrar que nem só de festa vive a humanidade, São Paulo amanhece entre labaredas. Um incêndio devora casas na Rua dos Gusmões, e o fogo, esse escultor caótico, redesenha vidas com suas chamas impiedosas. O milagre é que, desta vez, as labaredas não cobraram almas, apenas tijolos e lembranças carbonizadas. Mas quem já viu a fúria do fogo sabe que ele não queima apenas paredes—ele queima histórias, fotografias, livros, o cheiro dos dias que se foram.
Do outro lado do globo, o Canadá troca de maestro. Justin Trudeau, que por anos regeu a sinfonia política do país, agora entrega a batuta a Mark Carney. O novo premiê assume o posto num tabuleiro geopolítico em chamas, com Donald Trump, o velho jogador de xadrez de muro baixo, já movendo suas peças no tabuleiro da guerra comercial. Carney, ex-banqueiro, tem o desafio de transformar cifrões em esperança e contas em confiança. Resta saber se sua caneta traçará um futuro promissor ou apenas um saldo de promessas vencidas.
E enquanto os homens lutam contra o tempo, o fogo e o poder, no Vaticano, um ancião resiste. O Papa Francisco, navegando as águas turbulentas da fragilidade humana, dá sinais de melhora. O mundo observa sua convalescença como quem olha para um farol em meio à tempestade, pois, em tempos onde a fé vacila e os valores oscilam, a presença do Papa é um símbolo de continuidade, um eco do divino no meio do caos terreno. Ele volta a se alimentar de sólidos, e o gesto, pequeno para um homem comum, é uma metáfora de resistência para um líder espiritual: quem se alimenta, ainda tem forças para falar; quem fala, ainda tem forças para sonhar.
E assim segue o mundo, entre partidas e chegadas, entre cinzas e confetes, entre incêndios e ressurreições. O tempo, esse diretor implacável, não permite ensaios—mas para aqueles que ainda respiram, sempre há tempo de fazer do palco da vida um espetáculo digno de ser lembrado.




