CRÔNICA

Crônica do Professor Antônio Glauber sobre as notícias do dia 30 de janeiro de 2025

O Quadrinho da Vida e a Tinta da Hipocris

Crônica do Professor Antônio Glauber sobre as notícias do dia 30 de janeiro de 2025
Publicado em 31/01/2025 às 13:43

As notícias do dia 30 de janeiro de 2025



Por Antônio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE


No Dia Nacional das Histórias em Quadrinhos, o Brasil se desenha como uma HQ tragicômica, onde o roteiro mistura ficção, drama, suspense e aquele humor involuntário que só a política nacional consegue produzir. O herói não usa capa, mas carrega um fardo de impostos. O vilão não tem rosto fixo – às vezes, é o déficit fiscal, outras vezes, é o governo, e quase sempre, é a burocracia.

No primeiro quadro, surge um aviso reluzente do Tribunal de Contas do Estado de Sergipe: “Prefeitos, vocês têm 10 dias para explicar onde foi parar o dinheiro da Deso!” Dez dias. Tempo suficiente para um vilão fugir para o Caribe, mas talvez insuficiente para um gestor lembrar onde guardou tantos zeros. No fundo da cena, um cofre vazio ri de todos, enquanto um contador desesperado folheia pilhas de papéis sem encontrar justificativa convincente.

Corta para o próximo quadro. O estudo da Desenvolve-SE exibe um dado impressionante: R$ 1,1 bilhão em precatórios pagos. Pequenos empresários, aposentados e profissionais liberais finalmente receberam o que lhes era devido. Mas a cena tem tons de ironia: para cada cheque que caiu na conta de um credor, um outro trabalhador olhou seu salário e se perguntou quando o dele também entraria nesse milagre da multiplicação dos boletos pagos.

Enquanto isso, na estrada da SE-270, os ambulantes, personagens invisíveis da economia informal, são notificados para desaparecer. O Ministério Público quer desocupar a rodovia. Para onde vão? Quem se importa? A história não tem balão de fala para eles, apenas um espaço em branco que representa o vazio das políticas públicas para os pequenos.

A narrativa ganha um tom de suspense quando surge a notícia de um adolescente apreendido em Aracaju com notas falsas. Falsas? Mas como distinguir entre uma falsificação e um orçamento governamental? Ambos prometem mais do que podem cumprir. Na sequência, o Conselho de Saúde desenha sua preocupação: a empresa que administra o Nestor Piva tem poucos dias para sair. Será que o próximo administrador será um artista ou um falsificador de promessas?

E então, a grande reviravolta: o governo bate a meta fiscal! Lula surge como um roteirista que muda o enredo de última hora. O rombo caiu de R$ 228,5 bilhões para R$ 43 bilhões. Um alívio, mas Haddad, coadjuvante nesse quadrinho, descobre que suas ideias de ajuste foram descartadas pelo protagonista da história. O ministro, desenhado com olhos arregalados e um balão de fala vazio, percebe que perdeu a caneta que reescrevia os gastos.

No capítulo final, um drama se desenha no céu: um avião da American Airlines colide com um helicóptero nos EUA. Um quadro de destruição e luto, com 67 vidas interrompidas em pleno voo. No Japão, o roteiro da realidade segue cruel: um idoso preso em um caminhão que caiu em uma cratera luta contra o tempo. O solo instável ameaça afundar sua esperança, enquanto as equipes de resgate tentam reverter o que parece um destino selado.

No último quadro da HQ brasileira, os Correios aparecem como um gigante exausto, com um rombo bilionário nos bolsos e um selo de “insustentável” colado na testa. O governo busca soluções. A privatização se insinua como um novo personagem na história, mas os espectadores ainda não sabem se ele é o herói ou o vilão.

E assim termina mais um dia no Brasil, um país onde cada manchete é um balão de fala carregado de ironia. O roteiro da nação continua a ser rabiscado, com traços tortos e coloridos de desigualdade. Mas o povo? O povo segue lendo essa história, tentando encontrar nas entrelinhas alguma página que valha a pena guardar.